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Introdução
A Solenidade da Ascensão do Senhor ocupa um lugar central no mistério pascal. Não se trata apenas da “despedida” de Jesus, mas da glorificação definitiva do Cristo ressuscitado, que retorna ao Pai sem abandonar a humanidade. Ao subir aos céus, Jesus inaugura um novo modo de presença: invisível aos olhos, mas vivo na Igreja, nos sacramentos, na Palavra e na missão.
Os textos de Atos dos Apóstolos e do Evangelho de Mateus revelam uma tensão profundamente humana e espiritual: os discípulos olham para o céu enquanto Cristo os envia para a terra. O coração deseja permanecer contemplando o Senhor; mas o Senhor envia seus discípulos ao mundo, para testemunhar o Evangelho “até os confins da terra” (At 1,8).
A Ascensão é, portanto, uma solenidade missionária, eclesial e escatológica. Ela fala da esperança do Céu, da dignidade humana elevada em Cristo e da responsabilidade da Igreja no presente. Refletir sobre esse mistério é compreender melhor quem é Cristo, quem é a Igreja e para onde caminha a humanidade.
1. A Ascensão como glorificação de Cristo
A Ascensão não significa que Jesus “foi embora”, mas que entrou plenamente na glória do Pai. O Ressuscitado leva consigo a humanidade redimida. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica:
“A Ascensão de Cristo marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus.” (CIC 665)
São Leão Magno afirmava:
“A glória da Cabeça tornou-se esperança do corpo.”
Cristo não abandona a condição humana ao subir ao Céu; ao contrário, ele a leva à plenitude. A humanidade ferida pelo pecado agora possui lugar junto de Deus. O Céu deixa de ser uma realidade distante e abstrata: em Cristo, o homem reencontra sua verdadeira vocação.
O Concílio Vaticano II afirma:
“O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado.” (Gaudium et Spes, 22)
Na Ascensão, vemos o destino final da humanidade reconciliada. Jesus sobe ao Pai não como espírito desencarnado, mas com seu corpo glorificado. Isso possui profundas consequências teológicas: o corpo humano, a história humana e a criação inteira são chamadas à redenção.
Santo Agostinho via nesse mistério uma grande consolação:
“Hoje nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao Céu; suba com ele o nosso coração.”
A Ascensão, portanto, não afasta Cristo da humanidade: ela abre o caminho para que a humanidade participe da vida divina.
2. “Por que ficais olhando para o céu?” — A Igreja enviada em missão
O relato de Atos apresenta uma cena profundamente simbólica: os discípulos permanecem olhando para o alto enquanto Jesus sobe ao Céu. Então os anjos perguntam:
“Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” (At 1,11)
Essa pergunta ecoa através dos séculos. A experiência cristã não pode reduzir-se a uma espiritualidade alienada ou intimista. A contemplação verdadeira conduz à missão.
Antes de subir, Jesus declara:
“Recebereis o poder do Espírito Santo (...) para serdes minhas testemunhas.” (At 1,8)
A Ascensão prepara Pentecostes. Cristo sobe ao Pai para enviar o Espírito Santo sobre a Igreja. Como ensina o Catecismo:
“Depois de glorificado pela sua Ascensão, Cristo derrama abundantemente o Espírito.” (cf. CIC 667)
O mandato missionário em Mateus 28 revela o coração da Igreja:
“Ide e fazei discípulos meus todos os povos.”
A Igreja nasce missionária. O Concílio Vaticano II declara:
“A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária.” (Ad Gentes, 2)
A Ascensão impede uma fé acomodada. O discípulo não pode permanecer imóvel diante do mundo ferido. Cristo envia sua Igreja às periferias humanas, espirituais e existenciais.
São João Paulo II escreveu:
“Não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna.” (Redemptoris Missio, 11)
A Ascensão transforma discípulos assustados em testemunhas chamadas a evangelizar.
3. A presença invisível, mas real, de Cristo
Há um aparente paradoxo na Ascensão: Jesus parte, mas promete permanecer.
“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,20)
A Ascensão inaugura uma nova forma de presença. Cristo não está mais limitado ao espaço e ao tempo. Agora ele está presente sacramentalmente, especialmente na Eucaristia, na Palavra, na comunidade reunida e nos pobres.
O Concílio Vaticano II ensina:
“Cristo está sempre presente na sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas.” (Sacrosanctum Concilium, 7)
A ausência visível de Jesus educa a fé da Igreja. Os discípulos já não caminham apoiados apenas nos olhos, mas na confiança. Como dizia São Gregório Magno:
“A fé não tem mérito quando a razão humana fornece provas.”
A Ascensão amadurece a fé dos discípulos. Eles aprendem a reconhecer Cristo de outra maneira: no Espírito Santo, na comunhão e na missão.
O Papa Bento XVI afirmou:
“A Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de modo novo.”
Por isso, o cristão não vive na nostalgia de um Cristo distante, mas na certeza de uma presença viva e atuante.
4. A esperança cristã e o sentido do Céu
A Ascensão também ilumina a esperança cristã. O Céu não é fuga do mundo, mas plenitude da comunhão com Deus.
Em tempos marcados pelo vazio espiritual, pelo medo e pela desesperança, a Ascensão recorda que a história humana possui um destino eterno. A vida não termina no sofrimento, no fracasso ou na morte.
O Catecismo afirma:
“A Ascensão de Cristo ao Céu significa sua participação, em sua humanidade, no poder e autoridade do próprio Deus.” (CIC 668)
E ainda:
“Cristo nos precedeu no Reino glorioso do Pai, para que nós, membros do seu Corpo, vivamos na esperança de estar um dia eternamente com Ele.” (CIC 666)
A esperança cristã não aliena; ela sustenta a missão. Quem sabe para onde caminha vive de modo diferente no presente.
O Papa Francisco recorda:
“O Céu começa quando deixamos Cristo transformar nosso coração.”
A Ascensão nos ensina que a vida humana possui horizonte eterno. Não caminhamos para o nada, mas para o encontro definitivo com Deus.
5. A Ascensão e a espiritualidade da Igreja hoje
A Igreja contemporânea corre dois riscos opostos: esquecer o Céu ou esquecer a terra. A Ascensão une as duas dimensões.
Cristo sobe ao Pai, mas envia seus discípulos ao mundo. O cristão vive com os pés na realidade e o coração em Deus.
São Paulo expressa isso de forma admirável:
“Buscai as coisas do alto.” (Cl 3,1)
Mas buscar “as coisas do alto” não significa desprezar a história humana. Significa viver tudo iluminado pelo Reino de Deus.
A liturgia da Ascensão convida a Igreja a recuperar três atitudes fundamentais:
esperança;
missionariedade;
confiança na presença de Cristo.
A CNBB frequentemente recorda que a evangelização nasce do encontro com Cristo e conduz ao compromisso com a vida e a dignidade humana.
A Ascensão nos impede de transformar a fé em mero ritualismo vazio ou em espiritualidade sem compromisso. O Cristo glorificado continua agindo através da Igreja.
Como dizia Santo Irineu:
“A glória de Deus é o homem vivo.”
A Ascensão é um chamado à maturidade espiritual: deixar de olhar apenas para o céu e tornar-se sinal do Céu no mundo.
Conclusão
A Ascensão do Senhor não é um adeus triste, mas uma promessa de plenitude. Cristo sobe ao Pai levando consigo nossa humanidade e deixando à Igreja uma missão: anunciar o Evangelho a todos os povos.
Os discípulos aprendem que seguir Jesus significa caminhar entre a contemplação e a missão. Não basta permanecer olhando o céu; é preciso testemunhar o Reino no cotidiano da vida.
A Igreja vive sustentada por duas certezas: Cristo reina glorioso junto do Pai e permanece conosco até o fim dos tempos.
A Ascensão revela o destino da humanidade, fortalece a esperança dos fiéis e impulsiona a missão evangelizadora da Igreja. Em um mundo frequentemente cansado e sem horizonte, o mistério da Ascensão proclama que a história humana possui sentido, direção e esperança.
Cristo subiu ao Céu, mas continua caminhando conosco.
Compêndio final de citações
“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” — Jesus Cristo (Mt 28,20)
“Recebereis o poder do Espírito Santo (...) para serdes minhas testemunhas.” — At 1,8
“A Ascensão de Cristo marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus.” — Catecismo da Igreja Católica, 665
“A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária.” — Concílio Vaticano II, Ad Gentes, 2
“Cristo está sempre presente na sua Igreja.” — Sacrosanctum Concilium, 7
“Hoje nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao Céu; suba com ele o nosso coração.” — Santo Agostinho
“A glória da Cabeça tornou-se esperança do corpo.” — São Leão Magno
“O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado.” — Gaudium et Spes, 22
“Não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna.” — São João Paulo II, Redemptoris Missio
“A Ascensão não indica a ausência de Jesus.” — Papa Bento XVI


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