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A Misericórdia que gera fé:

 Cristo Ressuscitado, a Igreja e o dom do perdão (Jo 20,19-31)


INTRODUÇÃO

O Evangelho de João 20,19-31, proclamado no Domingo da Divina Misericórdia, apresenta uma das cenas mais densas teologicamente de todo o Novo Testamento: o encontro do Ressuscitado com os discípulos, marcados pelo medo, e com Tomé, marcado pela dúvida. Trata-se de uma verdadeira síntese pascal: Cristo vivo, a paz messiânica, o dom do Espírito, o perdão dos pecados, a fé e a missão da Igreja.

A Igreja, ao celebrar este domingo como “Domingo da Divina Misericórdia”, reconhece que a Páscoa não é apenas vitória sobre a morte, mas manifestação suprema da misericórdia de Deus. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, “Deus revela plenamente o seu amor enviando o seu Filho” (cf. CIC, 219).

Esta reflexão pretende aprofundar, à luz da Escritura, da Tradição e do Magistério, três dimensões centrais deste texto: a presença do Ressuscitado na Igreja, o dom da misericórdia no sacramento da reconciliação e o caminho da fé que conduz à vida.


CRISTO RESSUSCITADO: PRESENÇA QUE GERA PAZ E COMUNHÃO

O texto inicia com uma situação de fechamento: “as portas estavam fechadas, por medo” (Jo 20,19). Este detalhe não é apenas narrativo, mas profundamente teológico. O medo é sinal da humanidade ferida, incapaz de se abrir à esperança.

No entanto, Cristo entra. Como afirma o Concílio Vaticano II, “Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem” (GS 22). Ele não apenas aparece, mas se coloca “no meio”, indicando sua presença constitutiva na comunidade reunida.

Sua primeira palavra é: “A paz esteja convosco”. Trata-se da paz messiânica, fruto da reconciliação com Deus. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, “a paz é a tranquilidade da ordem” (CIC, 2304, citando Santo Agostinho).

Santo Agostinho de Hipona comenta que Cristo “mostrou as chagas para curar a incredulidade” (In Io. Ev. Tract. 121). As chagas gloriosas não são apagadas, mas tornam-se sinais permanentes do amor misericordioso.

Assim, a liturgia da Igreja é o lugar privilegiado dessa presença: Cristo continua a entrar, a se colocar no meio e a oferecer sua paz.


O DOM DO ESPÍRITO E O PERDÃO DOS PECADOS: A MISERICÓRDIA COMO MISSÃO DA IGREJA

O momento central do texto é o sopro de Jesus: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Este gesto evoca a criação (Gn 2,7), indicando uma nova criação. A Igreja nasce como comunidade vivificada pelo Espírito.

Imediatamente, Jesus confere aos apóstolos o poder de perdoar os pecados (Jo 20,23). Este versículo é fundamental para a teologia sacramental. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os membros pecadores da sua Igreja” (CIC, 1446).

O Concílio de Trento declara que este poder foi realmente confiado aos apóstolos e seus sucessores, constituindo o fundamento do ministério da reconciliação.

São João Paulo II, na encíclica Dives in Misericordia, afirma: “A misericórdia é o amor que se inclina sobre toda miséria humana” (DM 3). Aqui, vemos essa misericórdia se tornar concreta: não é ideia, mas sacramento.

Portanto, a Igreja não é apenas comunidade reunida, mas instrumento da misericórdia divina. Cada absolvição sacramental é continuação daquele sopro pascal.


TOMÉ E O CAMINHO DA FÉ: DA DÚVIDA À CONFISSÃO

A figura de Tomé representa o drama da fé humana. Ele exige ver, tocar, experimentar. Sua postura reflete uma tensão constante na experiência cristã: o desejo de certeza diante do mistério.

Contudo, Cristo não rejeita Tomé. Ao contrário, vai ao seu encontro. São Gregório Magno afirma: “A incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé do que a fé dos outros discípulos” (Hom. in Ev. 26), pois ao tocar, ele confirma a realidade da ressurreição.

A resposta de Tomé é a mais alta profissão de fé do Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Aqui, a cristologia joanina atinge seu ápice.

Jesus, porém, aponta para um novo modo de crer: “Felizes os que creram sem ter visto” (Jo 20,29). O Concílio Vaticano II ensina que a fé é resposta à revelação divina, não baseada na visão, mas na escuta (DV 5).

A fé cristã é, portanto, eclesial e sacramental: crê-se a partir do testemunho apostólico, transmitido na Igreja.


A FINALIDADE DO EVANGELHO: CRER PARA TER VIDA

O texto se encerra com uma declaração programática: “Estes foram escritos para que acrediteis... e para que, crendo, tenhais a vida” (Jo 20,31).

A finalidade da Escritura não é apenas informar, mas transformar. Como afirma o Concílio Vaticano II, “nas Sagradas Escrituras, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de seus filhos” (DV 21).

A fé não é um fim em si mesma, mas caminho para a vida plena. São Tomás de Aquino ensina que a fé é início da vida eterna (cf. STh II-II, q. 4, a. 1).

Assim, o Evangelho de João apresenta uma dinâmica:

  • encontro com Cristo

  • acolhida da misericórdia

  • profissão de fé

  • vida nova


CONCLUSÃO

O relato de João 20,19-31 revela o coração da fé cristã: o Ressuscitado que entra nas portas fechadas, oferece a paz, comunica o Espírito, confia à Igreja o perdão e conduz à fé.

Para a Igreja de hoje, este texto é profundamente atual. Em um mundo marcado pelo medo, pela dúvida e pela fragmentação, Cristo continua a entrar e a dizer: “A paz esteja convosco”.

A comunidade cristã é chamada a ser lugar dessa presença viva, especialmente na liturgia e nos sacramentos. Cada fiel é convidado a fazer o caminho de Tomé: da dúvida à adoração.

A misericórdia não é apenas um tema, mas o modo como Deus age e salva. Como recorda São João Paulo II, “a Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia” (Dives in Misericordia, 13).

Crer, portanto, não é apenas aceitar uma verdade, mas entrar em relação com Cristo vivo e receber dele a vida.


COMPÊNDIO FINAL DE CITAÇÕES

  • “Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem.” — Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 22

  • “A misericórdia é o amor que se inclina sobre toda miséria humana.” — São João Paulo II, Dives in Misericordia, 3

  • “Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os pecadores da Igreja.” — Catecismo da Igreja Católica, 1446

  • “A incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé.” — São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos

  • “Nas Escrituras, o Pai vem ao encontro de seus filhos.” — Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 21

  • “A paz é a tranquilidade da ordem.” — Santo Agostinho

  • “A fé é o início da vida eterna.” — São Tomás de Aquino

  • “A Igreja vive quando proclama a misericórdia.” — São João Paulo II, Dives in Misericordia, 13